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Daniel Oliveira já não tem lágrimas para chorar
1.
Tenho uma enorme consideração por Daniel Oliveira, diretor de programas da SIC.
Dificilmente encontramos uma história mais inspiradora do que a dele…
… não por ter nascido num bairro social.
Os seus pais tinham 16 anos e um instinto natural para a perdição. Um e o outro mergulharam no inferno e nesse mergulho esqueceram-se de proteger o filho. Não o protegeram quando era bebé, não o protegeram quando era criança e nunca estiveram quando era adolescente.
A mãe do Daniel prostituiu-se para alimentar o vício das drogas duras.
O pai do Daniel chegou a estar preso e parte do seu caminho foi gasto na luta contra a hipótese de ressacar.
2.
Amparado pelos avós maternos bebeu do sofrimento e fez do sofrimento uma âncora de salvação. Talvez tenha sido esse o seu truque maior.
Uma mãe que foi prostituta, que se tentou suicidar, que lhe virou as costas em nome do vício?
Um pai que fez o mesmo, que foi preso, que não quis saber?
A larga maioria tentaria escondê-lo, mas Daniel fez o contrário. Mostrou tudo. Encarou de frente o inferno, desafiou-o e nessa exposição ficou protegido para sempre.
Fez do horror a arma mais poderosa de resistência contra o horror.
Fez da condenação à derrota um instrumento da sua fortíssima ambição.
Transformou a perda da infância, e a infelicidade mais funda, numa ficção que o ajudou a fundar a sua própria vida.
3.
E nunca desistiu.
O Daniel nunca parece ter desistido de si próprio.
Quando aos 16 anos escrevia jornais caseiros com folhas A4. Quando apanhava dois autocarros a caminho da SIC para tentar entrevistar as estrelas. Quando fazia esperas a quem passava, quando fez por ser notado, quando pediu uma oportunidade para fazer o que quer que fosse na SIC.
Passaram quase trinta anos desde o jornal da escola.
E o Daniel Oliveira é hoje uma estrela. Um vencedor, alguém que parece ter o “Toque de Midas”, seja isso o que for.
A SIC continua à frente.
E ele, no alto dos seus quarenta e poucos anos, continua a fazer chorar os seus convidados.
Um por um, uma por uma, todos e todas choram à sua frente.
Todos choram, menos ele.
As suas lágrimas nunca foram vistas pelo público.
Como poderia chorar, pergunto eu.
Como pode chorar alguém que gastou todas as lágrimas numa outra vida?
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